sábado, 18 de junho de 2016

O que aconteceu em 40 Anos - Baseado em texto do Alexandre Garcia


O que aconteceu em 40 anos?


No dia 15 de Outubro de 2.013, o jornalista Alexandre Garcia postou o texto abaixo, no Diário da Amazônia http://www.diariodaamazonia.com.br/quarenta-anos/

Meu amigo Sérgio lembra que em 1971, de traquinagem, quebrou o farol de um carro estacionado perto da casa dele. O pai soube, deu-lhe uma surra de cinta e o traquina nunca mais fez aquilo. Entrou para a faculdade e hoje é um profissional de sucesso. Em 2011 seu filho fez o mesmo, Sérgio reprisou a surra que levara, mas seu filho o denunciou e ele foi condenado à prestação de serviços comunitários. O filho caiu na droga e hoje está num abrigo para menores.
Em 1971, o coleguinha mais moço de Sérgio sofreu uma queda no recreio, a professora deu-lhe um abraço e o menino voltou a brincar. Em 2011, outro menino esfolou-se no pátio da mesma escola, a diretora foi acusada de não cuidar das crianças, saiu na TV e ela renunciou ao magistério e hoje está internada, em depressão.
Em 1971, quando os coleguinhas de Sérgio faziam bagunça na aula, levavam um pito do professor, eram levados à direção e ainda sofriam castigo em casa. E todos se formavam prontos para a vida. Em 2011, a bagunça em sala de aula faz o professor repreendê-los, mas depois pede desculpas, porque os pais foram se queixar de maus-tratos à direção. Hoje fazem bagunça no trânsito e no cinema, incomodando os outros.
Em 1971, nas férias, todos saíam felizes, enfiados num Fusca. Depois das férias, todos voltavam a  estudar e a trabalhar mais. Em 2011, a família vai a Miami, volta deprimida e precisa de 15 dias para voltar à normalidade na escola e no trabalho.
Em 1971, quando alguém da família de Sérgio adoecia, ía ao INPS, esperava duas horas, era atendido, tomava o remédio e ficava bom. Saía a correr, pedalar, subir em árvores de novo. Em 2011, os parentes de Sérgio pagam uma fortuna em planos de saúde, fazem exames de toda sorte à procura de câncer de pele, pressão nos olhos, placas nas artérias, glicose, colesterol, mas o que têm é distensão muscular por causa de exageros na academia.
Em 1971, o tio preguiçoso de Sérgio foi flagrado fazendo cera no trabalho. Levou uma reprimenda do chefe na frente de todos e nunca mais relaxou. Em 2011, o cunhado de Sérgio foi flagrado jogando xadrez no computador da empresa, o chefe não gostou e o puniu. O chefe foi acusado de assédio moral, processado, a empresa multada, o cunhado relapso foi indenizado e o chefe demitido.
Em 1971, o irmão mais velho de Sérgio deu uma cantada na colega loira de trabalho. Ela reclamou, fez charminho e aceitou um jantar. Hoje estão casados. Em 2011, um primo de Sergio elogiou as pernas da colega de escritório, foi acusado de assédio sexual, demitido e teve que pagar indenização à mulher das belas pernas, que acabou no psiquiatra.
Meu amigo Sérgio me pergunta o que deu em nós, nesses 40 anos, para nos tornarmos tão idiotas, jogando fora a vida como ela é.
Dei a resposta: é a ditadura da hipocrisia imbecil do politicamente correto.
Sem pretensões, gostaria de complementar o artigo de Alexandre Garcia, baseado em minhas próprias observações:
Ainda tem mais... Em 1971, estudávamos em escola pública e chamávamos de "vagaus" os que eram jubilados por repetência e não lhes sobrava nada mais senão estudar em escolas particulares.

Em 1971, trabalhávamos desde os 13 / 14 anos, sentíamo-nos orgulhosos de sermos independentes e ajudar no orçamento da casa e estudávamos à noite. Além disso, lembro que, quando buscávamos melhorar nosso trabalho e fazer mais do que era nos solicitado, um grupo de senhores (não os chamávamos de "tios") nos elogiavam e se dispunham a ensinar aquilo que sabiam. Eramos aprendizes. Atualmente, um jovem com menos de 18 anos não pode sequer pensar em trabalho, pois trata-se de "exploração infantil". Crianças e Adolescentes tem que estudar e não serem explorados. Ora, à exceção de crianças que trabalhavam (e trabalham) em minas de carvão e na lavoura, nunca vi nenhum de meus colegas de 13 ou 14 anos serem explorados. Se assim se sentiam, simplesmente procuravam outro emprego. 

É desta maneira que os governantes atuais, do PT e dos demais Partidos, conduzem as políticas sociais. Intrometem-se até no recôndito do lar, ameaçando pais que admoestam ou dão palmadas nos filhos como se criminosos fossem. Eu tomei alguns tapas, chineladas e cintadas da minha mãe e do meu avô e nem por isso me sinto com vontade de descontar na sociedade ou no patrimônio público minha revolta. Aliás, eu os amei muito e deles tenho saudade, lembrando, sim, das palmadas, mas lembrando de muito mais coisas positivas, exemplos, virtudes e valores.

Deste modo, discursam que crianças e adolescentes tem que estudar e se divertir, mas não lhes dão condições, como quadras de esporte, academias de literatura e de música para sensibilizar o espírito humano e outras atividades que os tirariam da rua e os enriqueceriam como seres humanos. Eles só fazem uma parte e a outra, a do abandono e da falta de perspectivas de uma melhora de vida, fica sem resposta.

Outra coisa de que são useiros e vezeiros é o de lançar grupos uns contra os outros: a dita "elite branca" contra o povo espoliado; o empresariado ganancioso contra os trabalhadores indefesos; os motoristas contra os ônibus; motoristas contra os pedestres; a direita conservadora contra a esquerda "iluminada" e detentora de todas as respostas e, mais recentemente, os negros contra brancos e brancos contra índios. Assim, a sociedade se esgarça e não se une contra os desmandos dos governantes. Esta segregação é sentida até na criação de "delegacias especializadas" - a da mulher, a dos homossexuais, etc. Ora, crime é crime e já existem leis suficientes para punir atentados ou violência contra os seres humanos, seja de qual gênero for, seja de qual raça for, seja de qual faixa etária for.

Por último, lembro que uma conhecida nossa, a Coronel Vitória, aliás, mulher, negra e pobre que conseguiu vencer graças à sua perseverança e luta, me disse, num almoço: "Cabral, por volta de 1.980/81, nós recebemos uma delegação da polícia americana, que diziam ter que instalar detectores de metais na entrada das escolas, face à violência urbana. Nós, do grupo brasileiro, dizíamos que isso não ocorreria nunca no Brasil, face ao comportamento pacífico de seu povo. No entanto, hoje, nós somos mais violentos que os americanos! Como deixamos isso acontecer? Como conseguimos mudar tanto em 25 anos (nossa conversa foi, por volta de 2.005)? E o pior é que não contamos sequer com os aparatos que eles estavam instalando e nem temos sua infraestrutura".

Assim, como encerra o artigo, a maioria silenciosa, que trabalha, suporta e faz esse país enriquecer fica mais acabrunhada em face dos grupelhos barulhentos, que disseminam sua mensagem com muito mais eficácia, muitas vezes vivendo e sendo pagos para isso. Grupos de direitos humanos maniqueístas, de defesa insana do meio ambiente, de resgate do "massacre" que europeus fizeram aos índios, da escravidão a que submeteu os negros, etc. Chegaram ao cúmulo de buscar a censura dos livros de Monteiro Lobato, por conta do papel servil da Tia Nastácia. Estes revisionistas se esquecem de que o ser humano não é dotado de uma personalidade tão simples e voltada, naturalmente, para a cooperação e bem estar do próximo. Se assim, não fosse, negros não escravizariam negros, para deles se utilizarem ou para vendê-los a outros povos. Se assim não fosse, não existiriam, no passado, guerras sangrentas entre os povos indígenas. A mesma espécie humana, cujos representantes são capazes de traduzir em sons a harmonia divina, como Mozart e outros, é capaz de gerar psicopatas como Hitler e Stalin, apenas para ficarmos mais próximos dos eventos históricos, em qualquer grupo social.

Por último, lembremo-nos de que os saltos de evolução e de civilização da humanidade se deram com guerras, sim, mas também com muito humanista (normalmente da elite, pois tinha condições de estudar, avaliar e argumentar, enquanto os com menos oportunidade estavam focados apenas em sobreviver) trabalhando arduamente para demonstrar que os homens são iguais e devem ter as mesmas oportunidades, devem ser livres de pensamento e fisicamente, devem ter sua dignidade preservada.

Respeitemos nossas tradições humanistas e iluministas, deixemos de nos calar e passemos a demonstrar nosso descontamento, nossa contrariedade. Se a maioria silenciosa começar a rugir, não há nenhum grupelho que a enfrente!

Oswaldo Cabral

Nenhum comentário:

Postar um comentário